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Florence PABIOU-DUCHAMP,
p. 93
Être femme de rois karanga à la fin
du XVIe et au début du XVIIe siècle
Certains Portugais influents du Sud-Est africain, territoire compris entre la baie Delagoa
et le cap Delgado dans les actuels Mozambique et Zimbabwe sont considérés,
à la fin du XVIe et au début du XVIIe siècle, comme les femmes du Mwene Mutapa et du
Quiteve, souverains de royaumes shona karanga au sud du Zambèze. Les Portugais
dalors ny voient quun titre honorifique, thèse que reprennent des
historiens du XXe siècle et tout particulièrement W.G.L. Randles.
La documentation portugaise fait part de lexistence de « grandes femmes »
gouvernant auprès des souverains et ayant des prérogatives éminemment politiques. Elles
sont des seigneurs dominant des territoires proches de la cour et interviennent dans la
nomination et lintronisation des nouveaux rois. Leur existence laisse entrevoir
lincompréhension des contemporains, et plus tard des historiens. Informés par leur
vision masculine de la royauté où les reines sont avant tout des épouses, ils ne
comprennent pas le rôle des femmes, et par extension, celui de ces Portugais, « femmes
des rois ».
Cet article montre la capacité dadaptation des royautés karanga par
lintégration détrangers dans leur système politique, qui les transforment
en seigneurs et en relais du pouvoir. Ces Portugais permettent aux rois karanga de
réaffirmer leur autorité, dans des territoires éloignés de la cour, toujours plus
difficiles à défendre face aux désirs dindépendance de certains de leurs
vassaux. Il met également en évidence la lecture biaisée quen font les Portugais
contemporains, mais également des historiens du XXe siècle.
Ser mulher de reis karanga nos finais do séc. XVI e no início do séc. XVII
No final do século XVI e no início do século XVII, na África do Sudeste, entre a baía
Delagoa e o cabo Delgado no actual Moçambique e Zimbabué alguns
Portugueses influentes eram considerados como mulheres do Mwene Mutapa e do Quiteve,
soberanos dos reinos shona karanga ao sul do Zambeze. Os Portugueses daquela época viam
naquilo apenas um título honorífico e muitos historiadores do século XX, como W.G.L.
Randles, recuperam esta visão.
A documentação portuguesa informa-nos sobre a existência de « grandes mulheres » que
governavam ao lado destes reis. Elas tinham um grande papel na vida política daqueles
reinos. Podemos considerá-las como Suzeranas dos territórios situados perto da corte e
intervinham na nomeação e na entronização dos novos reis. Estas mulheres não foram
sempre bem compreendidas pelos seus contemporâneos e, mais tarde pelos historiadores do
século XX. Envolvidos num mundo dominado pelo sistema patriarcal onde as mulheres eram,
antes de tudo, esposas, estes não podiam compreender o papel destas mulheres ; e por
extensão, o papel desses Portugueses, que eram « mulheres dos reis ».
Este artigo mostra a capacidade de adaptação das realezas karanga, integrando
estrangeiros no seu sistema político, estabelecendo-os como senhores e intermediários do
poder. Graças a estes Portugueses, os reis karanga reafirmavam a sua autoridade, nos
territórios afastados da corte, custosos a defender frente ao desejo de independência
dos seus vassalos. Mostra também a leitura torcida feita pelos Portugueses dos séculos
XVI-XVII mas, igualmente, pelos historiadores do século XX.
Wife of a Karanga King in the Late 16th and Early 17th Centuries
Certain influential Portuguese men from South Eastern Africa, the territory between the
Delagoa Bay and Cape Delgado now Mozambique and Zimbabwe were considered in
the late 16th and early 17th centuries, as the wives of Mwene Mutapa and Quiteve, the
sovereigns of the Shona Karanga kingdoms south of the Zambesi. The Portuguese of the time
saw it merely as an honorary title, an opinion shared by 20th century historians, and in
particular W.G.L. Randles.
Portuguese documentation informs us, however, of the existence of important female figures
governing alongside these sovereigns, with eminently political prerogatives. These women
dominated the territories close to the royal courts and took part in the naming and
enthronement of new kings. These women were not always well understood by their
contemporaries, or later, by 20th century historians. Informed by their masculine vision
of royalty where women were above all spouses, they could not understand the role of these
women and, by extension, that of the Portuguese so-called «kings wives».
This article shows the capacity of the Karanga royals to adapt by integrating foreigners
into their political system, setting them up as lords, as relays of power. These
Portuguese figures enabled the Karanga kings to reaffirm their authority over territories
further from the court, areas ever more difficult to defend against the aspirations for
independence of certain vassals. It also clearly shows the biased vision not only of the
contemporary Portuguese, but also of 20th century historians. |